Jorge Vercillo celebra 30 anos de carreira, redefine romantismo e rejeita 'fórmulas de sucesso'
22/08/2026
(Foto: Reprodução) Jorge Vercillo fala sobre romantismo, carreira e mudanças no mercado da música
Após mais de 30 anos de carreira, duas premiações do Grammy Latino e discos de diamante e de ouro, Jorge Vercillo passou a enxergar de outra forma o rótulo de cantor romântico que, no início da trajetória, preferia evitar. Para ele, o romantismo vai além das canções de amor e pode representar liberdade, quebra de padrões e transgressão.
“Jesus teria sido um dos primeiros grandes românticos, justamente por transgredir regras e trazer um olhar para a fragilidade, para o feminino e para a criança. Então percebi que o romantismo também pode ser uma forma de transgressão”, refletiu.
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Em entrevista ao g1, Vercillo relembrou a relação com “Avesso”, música lançada em 1997 e que conta a história de amor entre dois homens. Ele falou sobre as transformações da indústria musical e explicou por que prefere fazer uma música “verdadeira” a buscar aquilo que considera mais vendável.
O cantor se apresenta neste sábado (22), às 22h, no Santos Convention Center, em Santos, no litoral de São Paulo. No show, ele promete reunir sucessos da carreira e músicas menos conhecidas pelo público. Os ingressos são vendidos on-line.
Jorge Vercillo se apresenta neste sábado (22) em Santos, SP.
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Confira a entrevista completa:
O que o Jorge Vercillo de hoje diria para o artista que estava começando a carreira?
Eu diria para ele não ter tanta pressa. A gente começa querendo conquistar o mundo rapidamente, mas hoje percebo que construir uma obra consistente é muito mais importante do que simplesmente fazer sucesso. Eu diria para ele se apaixonar pelo que está fazendo, estudar muito, ouvir música de todos os lugares e não abrir mão daquilo que acredita ser bonito e verdadeiro.
O mercado muda o tempo todo, mas uma música feita com verdade pode atravessar muitas transformações. E, principalmente, eu diria para não tentar fazer o que é mais vendável, mas aquilo que realmente precisa ser feito. O resto é consequência.
Qual foi o momento em que você percebeu que sua música tinha conquistado um espaço definitivo na vida do público?
Isso foi acontecendo aos poucos. Talvez, por isso, seja difícil apontar um único momento. Existem músicas que começaram a ganhar ,vida própria, que foram sendo incorporadas à história das pessoas, às novelas, aos casamentos, às separações, aos encontros.
Quando você percebe que uma canção que escreveu há muitos anos continua sendo cantada por pessoas que nem tinham nascido quando ela foi lançada, você entende que ela já não pertence mais somente a você. Acho que esse é um dos maiores privilégios que um compositor pode experimentar.
Você tem músicas que atravessaram décadas e gerações. O que faz uma canção permanecer atual mesmo tantos anos depois?
Acredito que uma música permanece quando ela tem alguma coisa de essencial. Essas músicas, na grande maioria, levaram muitas semanas ou meses para serem feitas. Tudo que tem um conteúdo mais denso costuma trazer uma durabilidade temporal maior.
Uma boa melodia não envelhece facilmente, e uma letra que consegue despertar novos sentimentos e ideias em quem escuta também encontra diferentes gerações. Talvez seja por isso que eu continue acreditando tanto na MPB: ela tem uma riqueza melódica e poética enorme. A gente busca fazer o mais bonito possível, e não o mais vendável possível a todo custo.
Jorge Vercillo falou sobre sua trajetória em entrevista ao g1.
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Quando você compõe, o que costuma surgir primeiro: uma frase, uma melodia, uma história ou um sentimento?
No meu caso, quase sempre a melodia. É como se ela já trouxesse uma história dentro dela. Quando crio uma melodia, fico com aquela melodia na cabeça, quase como uma possessão, até conseguir encontrar uma letra ou desenvolver um caminho de sonoridade para ela. Muitas letras surgiram justamente da sonoridade das palavras.
A letra precisa fazer sentido, claro, mas também precisa descer redondo, ser gostosa de ouvir e cantar, ter rimas, palavras surpreendentes e frases que despertem novas ideias na cabeça de quem está ouvindo. Costumo dizer que minhas músicas são melodias que contam uma história, e a letra tenta traduzir essa história.
Existe alguma música sua que você passou a enxergar de outra maneira com o passar dos anos?
Sim. “Avesso” é uma delas. Quando lancei a música, em 1997, eu ainda renegava um pouco o título de romântico, porque achava que isso poderia ser confundido com uma coisa brega. Com o tempo, passei a entender o romantismo de uma maneira muito mais ampla.
O Jorge Mautner me trouxe uma reflexão muito interessante de que Jesus teria sido um dos primeiros grandes românticos, justamente por transgredir regras e trazer um olhar para a fragilidade, para o feminino e para a criança.
Então percebi que o romantismo também pode ser uma forma de transgressão. E “Avesso”, contando a história difícil de amor de dois rapazes, acabou sendo também uma canção muito importante dentro dessa perspectiva.
Jorge Vercillo contou que começa suas criações pela melodia.
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Você atravessou grandes transformações na música, dos discos físicos ao streaming. Qual mudança mais impactou sua maneira de fazer e viver música?
O streaming mudou muito a forma como a música circula, mas, talvez, a grande transformação tenha sido a velocidade com que tudo passou a acontecer. Hoje, existe uma quantidade gigantesca de música disponível, e o algoritmo coloca estilos completamente diferentes na mesma prateleira. Eu continuo acreditando que existe espaço para a música que não precisa ser consumida imediatamente.
A MPB tem muito essa característica de cauda longa, são músicas que podem permanecer nas rádios, nas playlists e na cultura musical por muito tempo.
Eu não mudei minha maneira de compor para acompanhar essas transformações. Continuo buscando melodias, harmonias e letras que me surpreendam. O mercado muda, mas a necessidade de fazer uma música que me apaixone continua sendo a mesma.
Depois de tantos anos de carreira, o que ainda te desafia como compositor e artista?
O que ainda me desafia é continuar me surpreendendo. O compositor está sempre trazendo novas músicas e ideias, e isso por si só já é uma grande motivação. Eu não quero simplesmente repetir uma fórmula que funcionou. Quero buscar novas referências, novos estilos, palavras diferentes, rimas diferentes, melodias diferentes.
E quero continuar fazendo uma música que provoque alguma coisa nas pessoas, que faça pensar, questionar, talvez até se libertar de alguns dogmas. Depois de 30 anos, eu continuo querendo me apaixonar por aquilo que lanço. Acho que esse é um bom sinal de que ainda estou vivo artisticamente.
Você vai se apresentar em Santos. O que o público pode esperar desse show e existe alguma relação especial sua com a cidade ou com o público santista?
O público pode esperar um show muito vivo, com os grandes sucessos da carreira, mas também com espaço para músicas que fazem parte do meu lado B e que conquistaram o coração do público ao longo desses 30 anos. O roteiro foi muito trabalhado e testado, e a cada momento acontece alguma coisa nova, com arranjos diferentes, sem perder a natureza das músicas.
Santos tem essa relação muito forte com o mar, e eu sou um compositor profundamente ligado à natureza, então existe uma identificação muito bonita com essa paisagem e com essa energia. No fundo, o de que mais gosto é ver o público chegar ao show disposto a viajar comigo por essas diferentes fases da minha música. É isso que torna cada noite diferente.
Como tenho sido muito procurado por artistas das novas gerações para fazer participações especiais, gravei “Algo me diz” com o Lucas Balara. A faixa tem tocado muito nas rádios de MPB e de segmento jovem pelo país, além de estar presente em várias playlists. Ele é um excelente compositor da nova geração e vai cantar essa música comigo em Santos.
Jorge Vercillo fará show em Santos, SP.
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